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08/12/2015 13:00

EXERCÍCIO FÍSICO E DIABETES:
EXERCÍCIO FÍSICO E DIABETES: UMA ABORDAGEM FISIOLÓGICA
por Ruy Junior

Atualmente é comum escutarmos médicos especializados em endocrinologia afirmarem que o exercício é uma ótima forma para reduzir a quantidade exógena de insulina administrada pelo diabético, sendo assim, vamos entender porque isso ocorre, como o exercício pode ser um ótimo aliado ao tratamento e como também pode se tornar um vilão quando prescrito de maneira incorreta. 

 

Antes de analisarmos a relação existente entre a insulina, glicose e exercício, convém lembrar que o diabético tem como principal deficiência a entrada da glicose circulante no sangue para dentro da célula, para que esta possa realizar todas as suas ações fisiológicas. Essa incapacidade da entrada da glicose para dentro da célula se da principalmente pela falta ou pouca produção de insulina (principalmente no diabetes tipo 1) pelo organismo, já que esse hormônio é necessário para desencadear uma grande cascata bioquímica intracelular afim de possibilitar a entrada da glicose para dentro da célula. Essa reação de cascata bioquímica se da pela “ativação” de uma série de proteinas que transmitem a informação ao interior da célula, a informação é a seguinte: “há muita glicose circulante no sangue e é necessário que esta entre para o interior da célula”, sendo a última ação bioquímica em todo esse processo a “ativação” do GLUT 4, proteína que é translocada até a membrana celular possibilitando a entrada da glicose. Pois bem, sabendo que a insulina indiretamente é quem comanda a entrada da glicose na célula e se ela não estiver sendo produzida de maneira adequada pelo organismo pode acarretar vários problemas, sendo o principal deles a hiperglicemia, vamos entender como o exercício pode contribuir para que a célula consiga absorver a glicose plasmática mesmo na ausência de insulina, podendo reduzir as necessidades diárias de aplicação de insulina exógena e melhorando a qualidade de vida do aluno. 

 

Assim como a insulina tem a capacidade de acionar todo um complexo mecanismo bioquímico intracelular, o exercício também tem esse poder, através de uma via metabólica denominada via AMPK, já que através das ações dessa enzima, passando por uma redução na quantidade de ATP intracelular entre outras alterações bioquímicas, resulta também na ativação do GLUT4 que será translocado até a membrana celular e fará com que a entrada da glicose ocorra, assim como na via da insulina, porem utilizando proteínas diferentes, ou seja, por uma via diferente. Conhecendo de modo bem superficial as duas vias da entrada da glicose para a célula, fica lógico entendermos que se a quantidade de glicose indo para o interior da célula pela via do exercício aumenta, as quantidades de insulina a serem aplicadas deverão ser reduzidas, pois agora o exercício é responsável por parte desse processo que antes era somente responsabilidade da insulina. 

 

Cientificamente isso foi comprovado pela pesquisa realizada por Castaneda e colaboradores em 2002, onde um grupo de diabéticos realizou por 16 semanas, treinos três vezes semanais de musculação, como resultado a pesquisa demonstrou uma redução de 72% no uso de medicamentos comparado ao grupo que não treinou. Por esse motivo assim que você decide começar uma atividade física comunique a seu treinador ser um diabético, para que ele decida intensidade e volume do seu treino, assim seu médico terá condições de eterminar novas formas de administração da insulina, principalmente as prováveis reduções na dosagem, se será de ação rápida oulenta e diminuição do número de vezes ao dia.

 

Porem como disse anteriormente, assim como o exercício pode ser um forte aliado no tratamento do diabetes, a prescrição deste de forma incorreta pode acarretar conseqüências maléficas a saúde do aluno, principalmente a sua integridade física. Para que você entenda um dos riscos, imagine a seguinte situação: o diabético tem um controle muito rígido sobre a quantidade de açúcar ingerida, para manter níveis adequados de glicose circulante no sangue, então com uma glicemia baixa pela pouca ingestão de açucares e similares pela alimentação, sendo que a aplicação de certa quantidade de insulina é programada para cada caso, afim de atender as necessidades de entrada da glicose para a célula e se o exercício com seu poder de aumentar também a absorção celular de glicose é prescrito, possivelmente com pouca quantidade de glicose circulante no sangue e uma grande entrada desta pelo uso de insulina de ação rápida com um tempo muito próximo ao exercício a quantidade de glicose plasmática será seduzida muito rápido levando a uma situação perigosa ao aluno. 

 

Um fato ocorrido há certo tempo atrás exemplifica essa situação, pois uma mulher diabética acidentou-se com seu carro após desmaiar enquanto dirigia na volta da academia, depois do acidente foi constatado que ela teve uma crise hipoglicêmica pelo fato de ter usado insulina de ação rápida, realizado exercício, não ter se alimentado corretamente e não ter verificado sua glicemia pré treino. A fim de evitar esse tipo de situação onde os responsáveis foram o médico por não ter adequado a dose necessária e o horário apropriado da aplicação da insulina e do treinador que não se atentou ao fato dela não ter se alimentado adequadamente e não ter verificado sua glicemia pré e pós treino, é necessário que antes da iniciação em qualquer atividade física realizada por um diabético seja refeito toda a dosagem e horário de aplicações de insulina, assim como um treinamento totalmente voltado a esse aluno seja planejado. 

 

Referência bibliográfica:

Castaneda, C, Layne, J E, Munoz-Orians, L, Gordon, P L, Walsmith, J, Foldvari, M, Roubenoff, R, Tucker, K, Nelson, M. A Randomized Controlled Trial of Resistance Exercise Training to Improve Glycemic Control in Older Adults With Type 2 Diabetes. Published in Diabetes Care, Volume 25, number 12, December 2002.

KATCH, F. KATCH, V., MCARDLE, W. Fisiologia do exercício: energia, nutrição e desempenho humano. 4 ed. Rio de Janeiro: guanabara koogan, 1998.

 

Grande abraço a todos e bom treino intenso! Prof. Esp Ruy Junior – Membro do Centro de Estudos em Performance e Estética Fisiológica (CEPEF) e Responsável pelo Programa de Treinamento e Consultoria “ALTA INTENSIDADE”.

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